por Ricardo Sorrenti

Guy Ritchie parece ter encontrado nas comédias de erros o seu cinema. Londres, registrada em suas tramas, é um caldeirão cheio de subversão. O crime parece reger a cidade e, desta forma, o cineasta faz com que o conceito de herói seja revisto e force seus espectadores a torcerem por um vilão menos ordinário; personagens que, munidos de poucos dos valores morais da sociedade, são carismáticos por natureza, ou pela motivação que os forçou a estarem em determinada situação.
Em RocknRolla - A Grande Roubada, seu novo filme, pouco parece ser diferente de outras produções suas, como Revolver, Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch, Porcos e Diamantes. Estão lá os diálogos ácidos, o peculiar (mau-)humor britânico, a violência com pouca dosagem de censura, o objeto causador de toda a problemática, a forma fragmentada de contar sua história e os constantes erros que se acumulam e dançam a uma trilha sonora bem ensaiada em cortes rápidos de cena, dando todo aquele tom característico de videoclipe.
Mas é essa diversidade imoral de suas tramas que garantem a diversão. Ritchie se agarra à fórmula que parece mais diverti-lo ao fazer um filme, e a reconta aprofundando em determinados temas, ora acrescentando algo que poderia ter em alguma outra obra sua, ora maneirando, ou excluindo, outras que não o agradaram anteriormente. Uma busca pela obra perfeita, onde cada resultado de seu experimento é um lançamento comercial nas salas de cinema.
Em RocknRolla, o caos se desenvolve quando One Two (Gerard Butler) e Mumble (Idris Elba) caem em um golpe imobiliário aplicado por um importante mafioso londrino: Lenny Cole (Tom Wilkinson), e seu braço direito, Archie (Mark Strong, excelente no papel). A forma que eles conseguem o dinheiro envolve um perigoso mafioso russo (Karel Roden), sua contadora (Thandie Newton), a figura clichê de um roqueiro auto-destrutivo (Tobby Kebbell, igualmente perfeito no papel) – o RocknRolla do título – e uma estimada obra de arte, que irá desencadear e unir todas as partes interessadas por uma fatia do submundo criminoso de Londres. Perde a graça se aprofundar na história, pois isso diminui a overdose de seqüências de imagens arremessadas em ritmo alucinante proposta por Guy Ritchie.
Para quem já assistiu a algum dos outros filmes citados do diretor, e não gostou, assistir a RocknRolla pode significar uma mesma e desagradável experiência. Para quem se interessou, para dizer o mínimo, o filme tem mais caldo para a hipócrita Londres de Ritchie. Mas, mesmo com tanto sabor para sua mesma fórmula, resta saber até quando esses experimentos serão divertidos, e não cansativos e repetitivos, a ponto de não mais se renovarem a cada título.