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entrevista: Japinha um baterista zen

Por Bia Fugulin

Japinha  - CPM22Japinha festeja com serenidade a liberdade que tem hoje. Pode se vestir do jeito que bem entende, pode usar piercing, cabelos compridos, coloridos, trabalha em horários não convencionais, bastante diferente de cinco anos atrás, quando ele era funcionário público e cumpria horário na seção de adoção do juizado de menores do Fórum João Mendes, em São Paulo.
Pra quem não sabe, o nome dele é Ricardo, tem 33 anos, é neto de japoneses por parte de mãe e é o baterista do CPM 22, um dos maiores grupos de rock do Brasil dos últimos anos. Até poucos meses atrás, acumulava também a função de baterista da recém-saída banda do underground, Hateen.
No começo de 2006, o CPM 22 esteve no Japão e fez shows em Nagoya, Hamamatsu e Nagano.
Entre um show e outro, que a banda têm feito pelo Brasil, Japinha, um cara pra lá de zen, falou com a Revista Tran-samérica Internacional, em São Paulo.

Como foi sair do underground e despontar nos primeiros lugares das paradas de sucesso?
Foi uma grande mudança. Nós fomos crescendo aos poucos na cena independente e quando entramos no mainstream não conquistamos um público gigante. Foi na quarta música que nosso público começou a aumentar.

Nesta evolução quais foram as principais mudanças?
Em termos de estrutura muda muito, 95% das coisas melhoram. A liberdade que se tinha de transitar nos locais já não se tem mais. É preciso lidar com a gravadora, com o empresário, a gente acaba atuando numa área em que não atuava antes.

Qual é a sensação do sucesso?
É boa. Acredito que são poucas pessoas que não gostam, porque, de certa forma, reflete o reconhecimento de um trabalho.

Você esperava todo este sucesso do CPM 22?
Eu sou um cara muito pé no chão. No primeiro ano de contrato, eu fiquei ainda trabalhando no meu outro emprego.

É natural que você esteja melhor financeiramente. Como é isso pra você?
Eu nunca estou muito acomodado. A gente (a banda) está melhor que antes. Dá uma sensação de vitória por ter conseguido e estar conseguindo viver de uma atividade que eu gosto de fazer, que é música.

Chegou onde queria chegar?
Eu ainda acho que, se comparado com vários outros trabalhos, a gente não ganha tão bem assim. É sempre bom buscar, produzir... O jogo nunca está ganho.
Ainda mais na música, que este ano pode estar bem, no outro de repente se lança um disco menos inspirado, os shows podem não estar bem legais...

E que tal usar a publicidade para gerar renda?
De certa forma a gente até usa. Participamos de três campanhas: Toddy, Gilette e Nova Schin. Há bandas internacionais que utilizam bastante, fazem bonecos, camisetas, merchandising... Lá fora tem bandas que ganham muito dinheiro com isso. Eu gostaria que o CPM fizesse, mas a banda tem uma certa resistência a isso.

O que você faria?
CPM já faz camisetas e bonés. Este ano começamos uns cadernos. Eu tenho a idéia de fazer bonequinhos com a nossa cara, roupas, artigos ligados à juventude, adolescência, skate, tênis.

Você é do tipo gastador ou é aquele cara que pensa no futuro?
Eu sempre gastei 10, 20% do que eu ganho. Faço aplicações e o pouco que gasto, procuro as coisas que eu vou usar e vão me ajudar no dia a dia, como um carro prático, não o luxuoso, costumo ser econômico. Acho importante, ainda mais no Brasil e sendo músico, isto é, sem saber o dia de amanhã, ter uma reserva.

Qual é seu maior sonho ainda não realizado?
Ah! Esse eu não conto! Sou meio supersticioso! E um pouco de vergonha mesmo, timidez. Imagine, há sete anos eu lá no fórum falasse pra você que meu sonho era ser baterista de uma grande banda de rock. Na hora você ia achar legal, mas ia pensar: “há 5 mil bandas tentando ocupar este lugar e, sei lá, cinco grandes bandas”.

Você está namorando?
Eu estava até bem pouco tempo atrás, mas não estou mais.

É o assédio das fãs que acaba atrapalhando os relacionamentos?
Acho que não. Eu sei separar bem e as pessoas que normalmente eu me relaciono sabem também. É que hoje ou eu vou assumir um relacionamento sério, pra ficar junto, morar junto, ou é preferível eu ficar solteiro, porque com a vida que eu levo ficar só namorando mais ou menos não condiz. Eu viajo muito e o relacionamento exige confiança, lealdade, companheirismo, então ou assume mesmo, ou...
Foi até por isso que este último não deu certo.

Você se desligou definitivamente do Hateen?
Não me desliguei totalmente, mas shows não vou mais fazer. Levei as duas bandas por sete anos, até o mês passado, só que o Hateen começou a crescer muito, e começou a dar conflitos de agendas. Dava até para fazer metade dos shows, mas aí acabava sobrecarregando o resto da banda, pois eles tinham que ensaiar com as duas formações. Inclusive, o contratante perguntava: “o Japinha vai estar?”. Então eu comecei a atrapalhar. Por consenso, a gente decidiu dar um tempo. Mas, se dependesse da minha vontade, eu estaria com as duas até agora. Eu sempre gostei de fazer um monte de coisas.

Qual é a sua relação com a cultura japonesa?
Eu adoro. Tenho admiração por tudo que vem de lá. Não tive tanto contato, pelo fato de o meu pai ser brasileiro e a família dele ser muito numerosa, a maioria dos meus primos são brasileiros. Gostaria de ter tido mais contato com o idioma, a comida... Agora eu estou indo atrás, a cultura é muito rica, tem muito o que aprender.

Você tem algum hábito de lá?
Tem uma coisa que eu fazia, mas nem faço mais. No ano novo, chamado umedetô, minha avó tinha um templo e às vezes ela chamava a gente pra fazer as orações também. Ela dizia: mamiroringuikiô.

E você sabe o que ela quer dizer?
Não... Deve ser um mantrazinho!

Já teve vontade de ir morar no Japão?
Um pouco, mas hoje em dia não sou muito a favor, talvez pela experiência de pessoas que eu convivi próximas que foram e a maioria não voltou ou mesmo os que voltaram, já retornaram para lá. Tive dois irmão que foram. Um voltou e o outro está no Japão há 15 anos. Posso até estar carregando um trauma.

Vocês foram para lá no começo deste ano. Como foi essa viagem?
Eu adorei, se pudesse ficaria mais.

O que você mais curtiu por lá?
O idioma, a limpeza nas ruas, o colorido. As pessoas, embora muito fechadas, têm um jeitinho muito interessante, falam baixo, sorriem e olham para baixo, são branquinhas de cabelos pretos.

Um recado para os dekasseguis.
Já que a escolha de viver no Japão foi feita, procurar tirar proveito de uma forma inteligente. Que tente ser feliz, não perder a essência do brasileiro, que é alegre e tentar se organizar no sentido econômico pra tirar proveito do tempo que vai passar aí. E que não se matem de trabalhar, saúde em primeiro lugar.

Preferências

Musicais – Rock, reggae, surf music, jazz, blues, heavy metal, indie, MPB.
Cinematográficas – Tarantino, Scorcese, Kevin Smith e David Lynch
Literárias – Saramago, Aristóteles, Gabriel Garcia Marques e Gene Simmons.
Amorosas – A futura mãe dos meus filhos. Só Deus sabe quem e como ela será.
Esportivas – Futebol, corrida, natação, surfe, basquetebol.
Automobilísticas – Não gosto de automobilismo, acho uma afronta à vida humana, assim como as lutas.
Tecnológicas – Computadores, internet, máquinas fotográficas
e de vídeo, celulares. Adoro, acho que sou um early-user
Turísticas – Interior, montanha, praia, compras. Adoro a Europa, o Japão e NY.

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